Contribuição genética

Alguns de vocês devem ter visto publicado em suas timelines ou no Instagram o resultado de uma análise feita por um aplicativo chamado Like Parent. Talvez tenham até utilizado essa ferramenta. A brincadeira é a seguinte: inserimos uma foto da mãe, do pai e do filho e o aplicativo fornece um percentual de contribuição genética de cada progenitor.

Preciso discordar do resultado do meu primeiro teste. Vejam só! Apenas 3% de semelhança com o pai??? Isso é um absurdo, pode, inclusive, me trazer problemas. Vai que o Joaquim cisma em pedir um exame de DNA…? “Pai é uma questão de fé, mãe é um fato”, sempre brinca ele.

Não é de hoje que a família dele, principalmente, afirma que o Felipe é muito mais Leite Barbosa do que Saboia. Tenho mais facilidade em perceber as minhas semelhanças através de fotos minhas quando criança. Mas preciso admitir que até o meu irmão Marcello, quando garotinho, se parecia mais com o meu filho do que com o próprio pai. Será que o Lucas vai seguir a fórmula?

Identifico nos meus rapazes outras características marcantes e menos imediatas, como o formato da cabeça e da testa, a sobrancelha e, principalmente, a personalidade. São extremamente metódicos e organizados. Nenhum dos dois é muito novidadeiro, ao contrário da mãe. Gostam das coisas estabelecidas, testadas, e oferecem alguma resistência quando proponho algo desconhecido e inexplorado. Justamente o que mais me excita! Já me frustrei com diversos presentes dados ao pai e ao filho, que torceram o nariz de primeira e só depois de um tempo passaram a valorizar.

Não sei quanto os pais em geral se incomodam ou não com as diferenças físicas. Meu afilhado Tom, por exemplo, nasceu ruivo, igual ao pai, ganhou até hashtag #gingertom e a mãe adora. Minha sogra, que é morena e teve um filho praticamente albino (acreditem, se quiser, o Joaquim era um bebê loiro), conta que em diversas ocasiões pessoas na rua pensaramque ela era apenas a cuidadora.

Parecido ou não, toda mãe é apaixonada pelo filho, até mesmo por seus defeitos. Minha mãe nunca escondeu, por exemplo, que achava o meu nariz lindo, ainda que tortinho. Já as crianças, passam por uma fase de julgamento mais cruel e dão muita importância à aparência. Lembro que tinha certa pena dos filhos de pais gordos ou velhos. Não conseguia enxergar a dimensão do amor que transforma, como bem diz a expressão em inglês: “beauty is in the eye of the beholder” (a beleza está nos olhos de quem vê).

Fato é que sentia muito orgulho da minha mãe. Achava que ela era uma das mães mais lindas da turma (e ainda acho). Meu pai não deixava a desejar. Me incomodei um pouco quando surgiram os cabelos brancos e me recordo que tinha certa vergonha de uma grande cicatriz que ele tem no abdômen, resultado de uma operação de diverticulite quando eu tinha apenas 10 anos de idade. Não gostava que ele ficasse sem camisa na frente das minhas amigas. Que bobagem a minha. Se soubesse, na época, que aquela cirurgia lhe salvara a vida, teria abraçado mais e me importado menos.

Essas memórias me fizeram resgatar outra lembrança, a de um filme muito lindo e muito triste, o Escafandro e a Borboleta. A trama tem como protagonista um homem, um pai que sofre uma paralisia rara e que passa a viver numa cama, só conseguindo mexer as pálpebras. Aprende a se comunicar pelo piscar de olhos e luta pela vida. A mensagem é a de que um pai nesse estado ainda é mais pai do que um pai morto.

O meu pai, Mauricio, teve um probleminha de saúde nos últimos dias e precisou antecipar a volta de uma viagem que estava fazendo ao exterior. O medo de perder meu pai perto de dar à luz o meu filho me deixou tão mal, que potencializou a minha coceira, que, aliás, já nem temos mais certeza se teve origem na sarna ou numa alergia de gravidez. As boas notícias são que estou melhorando a cada dia e meu pai também está em casa, são e salvo. Boa noite!

 

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